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Acerca deste blog

Particípios são palavras que partilham simultaneamente a natureza dos verbos e a dos adjectivos; são acções que qualificam, que deixam uma marca. Na gramática do Latim existia particípio futuro, no português actual já não, só existe o particípio passado e o presente. Neste blog queremos recuperar este tempo verbal, queremos desafiar a sociedade a agir participando na sua própria construção, a deixar já hoje as marcas para o seu futuro.

MiniGarden torna-se um caso sério de gestão

Fizeram-me chegar este vídeo realizado por alunos de uma pós-graduação do ISEG/IDEFE. Ele mostra o trajecto de um conceito inventado e lançado pela Quizcamp e que foi servido por uma estratégia de produto realizada em parceria connosco na Quotidian. É bom saber que essa estratégia está a ser alvo da atenção de uma população informada e interessada.

Já agora dou alguma informação adicional para um case study futuro.

O conceito de culturas verticais em floreiras empilháveis foi desenvolvido pela Quizcamp que, inicialmente, o via como um produto dirigido ao mercado agro-industrial. A Quotidian cedo verificou a inviabilidade desse posicionamento porque o mercado era de reduzida dimensão. Mas ideia parecia-nos de grande potencial e iniciámos uma análise de tendências e um processo de investigação primária em contextos domésticos reais. Foi assim que chegámos à conclusão que o futuro do produto estava no mercado residencial, no mass market.

  PesquisaEtnográfica

Esta imagem representa a situação observada que mais nos influenciou. Através de pesquisa etnográfica a Quotidian detectou a necessidade de cultivar plantas aromáticas e ornamentais no centro das cidades e em apartamentos exíguos, de manter pequenas hortas dentro de vasos, mesmo que não exista espaço.

Mas o conceito inicial da floreira ocupava muito espaço ao ser transportado e vendido pelos canais de distribuição usuais, o mesmo espaço que quando montada e, como tal, não se adaptava a uma distribuição em massa.  Foi decidido efectuar o re-design do sistema através da sua adaptação às exigências logísticas do canal de distribuição e às especificidades dos utilizadores residenciais.

A Quotidian efectuou o projecto de re-design que fez com que o sistema passasse a articular 3 peças - um vaso, um prato divisor e a pastilha de fixação - em vez de uma peça única. Ao mesmo tempo, através de testes com utilizadores, identificou-se a necessidade de mais espaço para manusear as plantas. Para isso foi incluída uma concavidade na base dos vasos que permitia o acesso mais fácil à terra e à raíz da planta. O resultado foi um produto muito estável, resistente do ponto de vista mecânico, que cumpre todos os requisitos do conceito inicial e que responde às necessidades concretas de um mercado específico.

A Quotidian também colaborou activamente na definição da estratégia de comunicação e naquilo que o site deveria comportar em funcionalidades e conteúdos. Assim se chegou ao produto actual que tem sido trabalhado pela Quizcamp de forma excepcional na divulgação e expansão comercial a nível global.

Só fica a pergunta, quantas invenções desenvolvidas por empresas, por técnicos, engenheiros e inventores necessitariam deste tipo de acção para se transformarem de conceitos que funcionam em produtos que podem ser usados e que, por isso, se conseguem vender?

Permalink 02-03-11 11:53:00 , by lqp , 18546 views, Ideias, Notícias, Leave a comment »Send a trackback »

Empatia na história da humanidade explicada através dos neurónios-espelho. O design encaixa!

Na Primavera de 1999 escrevi um artigo para uma conferência da Design Research Society intitulado Divergent thinking and the design process (pereira99.pdf). Embora tenha sido escrito logo após a descoberta destas estruturas neuronais que se activam por simpatia, ou empatia, o artigo ainda não se baseava na teoria dos neurónios espelho, porque à data eu ainda não tinha tido conhecimento dela. Antes fundamentava-se nos escritos de Damásio e da dupla Lakoff e Johnson. Aí eu defendia uma estreita ligação do sucesso da prática do design à imersão do designer na realidade do utilizador. A emoção da situação vivida através do outro que permite a criatividade e a tomada de decisão. Cheguei mesmo a dizer acerca da obrigatoriedade de ligação entre o utilizador e o designer que:

...the creative act in design might just be an immersion into the situation of use, a truly felt empathy, not because we voluntarily acknowledge the user but because we need that connection in order to create.

Isso implicava ter de deixar de fazer aquilo que era prática corrente à data, estudos científicos do utilizador à laia de "psico" e "sócio", onde se criava conhecimento sobre esse utilizador através da análise da sua vontade expressa e dos seus hábitos. Seria antes passar a observar o utilizador e imergir no seu contexto vivencial e isso é mais útil para operar uma compreensão com vista à solução dos seus problemas e à invenção de soluções que viessem satisfazer as suas necessidades.

No ano seguinte, escrevi outro artigo - Alternative Method for Design Activity Research (Alter_Method_lkd.doc.pdf) - onde já fazia referência ao trabalho de Gallese e Goldman sobre a descoberta destes neurónios espelho e do fenómeno neurológico a eles ligado. Aí dizia:

Gallese and Goldman (1998) clearly refer the existence of "mirror neurons"; structures that separate the visual/motor cognitive processes from verbal cognitive ones. These findings bring evidence that corroborates the existence of a physiologic mechanism projecting in one's mind what another person is doing without the need to decode it or understand it in abstraction, theoretically. What can now be said clearly, is that one doesn't need to verbalize, even in a mute sense, about what is happening, to understand it and to act according to a set of implicit goals and values. The linguistic function can, to a large degree, be excluded from a "quotidian mode" of decision making without turning it into an unexplained event. The use of language and rational cognitive processing may be only relevant when the problem-solving task is of a different kind, more close-ended and less wicked (Buchanan 1992) than the one in design.

Agora, 11 anos depois, descobri este vídeo que não podia deixar de referir. A abrangência do raciocínio e a negação da utopia através da existência da empatia leva-me a afirmar, mais uma vez, que a forma de pensar natural a um designer é exactamente esta, directa e empática. Os problemas e as necessidades das pessoas estão aí para serem resolvidos e isso tem de ser feito por designers altruistas e não por vedetas.

Permalink 02-02-11 00:39:00 , by lqp , 5500 views, Ideias, Crítica, Leave a comment »Send a trackback »

Deve ser por isto que se escrevem blogs!

A chave da motivação não está na recompensa monetária, está no interesse que vemos naquilo que fazemos, na perspectiva de nos superarmos e sermos reconhecidos, de conseguir alcançar algo para nós através da acção directa. Talvez ainda haja alguma esperança na humanidade!

Permalink 01-02-11 10:06:00 , by lqp , 708 views, Crítica, Leave a comment »Send a trackback »

Os problemas das massas passaram a ser a soma dos problemas de cada um

Esta foto responde a quem acha que os esxtremistas muçulmanos estão a oruqestrar os protestos

Será que a utopia anárquica está a acontecer?

No Egipto, que está hoje a ferro e fogo, ocorreram eleições há cerca de 2 meses e disso, só é interessante o facto de a nossa comunicação social quase não ter falado delas. Talvez pelo pouco interesse que as eleições suscitaram, pois os resultados deram apenas 3% dos votos distribuídos pelos diversos candidatos opositores ao regime de Mubarak. É que muitos deles boicotaram as eleições e não fizeram campanha, alegando que haveria fraude generalizada a ser preparada.

A pergunta que fica é sobre a relevância das eleições e do regime democrático para a vida dos cidadão do Egipto, pergunta-se se a situação hoje seria diferente caso as eleições tivessem acontecido em clima de honestidade e transparência. Certo é que, quaisquer que tenham sido as razões, hoje o movimento popular é imparável e só custa a entender o que é que faz a classe política esperar tanto para se ir embora?

Temos uma sociedade revoltada e furiosa. Porém, vemos que esta população participa activamente na construção do seu destino. Eles usam o facebook e o twitter para mobilizar manifestações e nem precisam de líderes. O que têm são muitas pessoas com problemas, problemas sentidos ao nível do indivíduo. Esse indivíduo não está à espera que se forme um partido, um conjunto de potenciais representantes, para fazer ouvir a sua voz. No caso da revolta na Tunísia, tudo começou porque um vendedor se sentiu injustiçado e decidiu imolar-se na via pública.

Uma lição que podemos tirar de tudo isto é que hoje ninguém espera por alguém que o represente, já não precisa que apareça alguém com um menu de reivindicações do qual escolhemos o prato que nos dá mais vantagens.  Ao que parece, partidos, sindicatos, movimentos orquestrados vão passar à história porque os indivíduos estão a ter uma voz directa na rua. Porque têm a informação, o sentido crítico e as ferramentas para o fazer.

Como consequência temos que a dimensão política está, aos poucos, a abandonar o paradigma do decisor que aposta no entretenimento e no marketing porque quer vender a sua visão de futuro. A sociedade está hoje, a nível global, a estabelecer um novo paradigma em que todos e cada um terão uma voz e uma capacidade de acção com significado na construção do seu futuro individual e colectivo. A dimensão política passará a ser uma de garantia da liberdade e da justiça, o resto é orgânico, vai acontecendo. Vamos passar a poder participar directamente com as nossas próprias vozes e talentos; a utopia anárquica está mesmo a acontecer.

Permalink 01-02-11 01:24:00 , by lqp , 4556 views, Ideias, Leave a comment »Send a trackback »